Assistíamos televisão, eu e uma amiga, e ela, no chão e com as pernas voltadas pra trás, apoiando o corpo um pouco pesado, encostada no sofá. A casa em que estávamos era pequena, um pouco precária, as janelas pintadas de branco continham aqueles acúmulos de tinta que formavam bordas nos cantos próximos do fim da janela, além dos furinhos enfileirados. A porta que estava aberta do lado da televisão dava para um quintal. Havia amigos e amigas neste quintal. Todos eram conhecidos.
O tom constante, mas baixo, da conversa entre eles lá fora trazia uma impressão de consenso e intimidade. As vozes estavam num volume bem baixo, e a conversa num ritmo lento e premeditado, havendo apenas algumas trocas de palavras. Uma das garotas, eu sabia por experiência de algum tempo de convívio, costumava chamar atenção para si e era acostumada a eleger assuntos compulsivamente nas conversas. Eu não escutava a voz dela.
Eu e minha amiga assistíamos tevê já com pouco entusiasmo ou envolvimento. Sentados num tapete e encostados num sofá com um revestimento brilhoso e com uma cor bege. Resolvi, naturalmente, ir até o quintal para ver o que eles estavam fazendo, quando percebi, que o consentimento que presumi vinha do que a garota estava fazendo. A cena foi vista por mim de relance, mas deu para perceber que ela chupava o pau de um dos caras no meio da turma. Completamente sem palavras, voltei para o sofá.
Mas agora a insistência daquele absurdo deixava-me num ir e não ir até a cena, e, quando fui até a porta de novo, e vi o movimento da cabeça dela, o apoio de suas mãos - uma no chão, outra na coxa do cara -, isto representou, para mim, o gesto mais servil que eu já havia presenciado. O restante dos meus colegas consentiam com aquele ato, entendi rapidamente, porque este cara parecia precisar de ajuda.
Por fim, havia um outro colega meu “na fila” com o pau pra fora para ser chupado depois. E eu encostei na parede da porta, com as mãos atravessando os cabelos, tentando entender o funcionamento daquele grupo de amizade.
10/12
Como estávamos no fim desta fazenda, e o limite dela era justamente esses arbustos finos e verde claros, muito bem emparelhados pela natureza, cheios, havendo uma chuva vertical deles, cujo peso de cada um pendia formando uma fina parede modelada pelo vento, eu e este amigo ríamos de algo. Na verdade, ele ria. Fazia alguma piada com este ônibus abandonado na nossa frente. Sem as rodas e estacionado há um bom tempo ali, sem os vidros, o branco metálico da pintura enferrujado pelo tempo. Havia um certo abandono na imagem desse ônibus, que me sugeria medo. Difícil saber que ecossistema se formava naquela carcaça de metal e ferro, em pleno cerrado, na fazenda do meu tio.
Meu amigo ria das próprias piadas com uma ênfase que me incomodava, e era sempre a mesma risada, uma cadência esganiçada de cinco ou seis graus. Era estranho pensar que uma fazenda aberta como aquela possuísse cômodos, na verdade, eram locais bem definidos: O local em que estávamos, na frente do ônibus e antes do limite da fazenda - antes dos arbustos finos e verde claros, a casa, e uma espécie de cabana também abandonada, com uma velha.
Eu só percebi a presença dela depois que desci até a cabana passando pelo ônibus. Vi duas coisas que, pela descarga de medo que me causaram, resolvi não fazer nada. Um pastor alemão com um olhar fixado numa grande distância, como uma estátua, e a velha, debaixo de um quintal improvisado dessa cabana, com um telhado de palha e tocos acinzentados de madeira segurando esse puxadinho.
Estava muito quente, e eu pude escutar com precisão o que a velha dizia, numa repetição que parecia bastante comum a ela. Talvez fosse um ritual? Ela dizia o seguinte:
- “No prazo da lua, no prazo da lua, no prazo da lua. Vem dançar. No prazo da lua, no prazo da lua, no prazo da lua, vem dançar. No prazo da lua, no prazo da lua, no prazo da lua, vem dançar.”
Ela também carregava na mão um revólver que apontava inseguramente para a diagonal. Uma 38 prateada. Seus braços é que pareciam muito frágeis. Cheio de medo, resolvi voltar até meu amigo.
Suas risadas continuavam, mas por alguma razão ele decidiu entrar no ônibus. Investigou por um tempo a grama que já havia penetrado em grande parte do veículo, à procura de algum objeto. Ele me chamou, mas meu medo já era totalmente concreto naquela altura, e a velha subia em nossa direção. Ainda com seu ritual, “no prazo da lua, no prazo da lua, no prazo da lua, vem cantar, no prazo da lua, no prazo da lua, no prazo da lua, vem cantar.” E com o revólver. Ao chegar na porta do ônibus, eu desesperado pelo meu amigo, ela apontou o revólver pra ele e atirou. O sangue dele atravessou as janelas. E dali em diante eu não soube mais o que fazer.
09/2012
p/ Laura S.
Estes dias em que celebramos o caráter solitário da vida, dias em que apareço aqui, pra te dizer, de todas as coisas que são especiais e requerem a consistência de um trabalho que vence as contigências do tempo. Sobre todas as coisas que planejamos, que sonhamos articular num futuro. Sobre o nosso próprio caminho. E que enxergamos também, exatamente o contrário: a dor que há na falta de autoria, a dor das incapacidades que vemos ou a dor de simplesmente não saber. A dor de não nos percebermos históricos, de não devotarmos continuamente a algo num ritmo pessoal, para criarmos pra nós um tempo que misteriosamente se amarra pelas nossas escolhas, e resulta numa bandeira fincada em terra, nossa, uma bandeira alada e nossa.
Somente pelo valor do mistério e com a ficção potente que criamos sobre nós mesmos que acreditar passa a ser um hábito; e que é preciso, também, ter um bom plano, homenageá-lo de todas as maneiras, de preferência diariamente, tentando sê-lo.
Assim finalmente a solidão mudará. Ela passará a ser uma espécie original de pausa, um trevo numa estrada, uma bifurcação, cuja intensidade será aquela própria de quem está construindo um destino.
A visão do corredor ainda me lembra aquela noite. Numa conversa qualquer, eu emprestando uma atenção detida em Caetano, enquanto ele observava um casal descontraído. Havia, eu notava bem, uma insatisfação sutil de Caetano com a indiferença manifestada na felicidade desse casal, que eu sentia com mal estar.
Os outros que estavam comigo e por perto resolveram atravessar o corredor, um acompanhando a decisão do outro de ir para a entrada. Dali, sentíamos apenas o rumor do som, muito suprimido pelo galpão que o restante da turma estava.
Na porta o som também não estava tão alto, mas estava bem mais presente. Havia cinco garotas conversando por ali, de pé, me pareceu que há algum tempo, por estarem apoiadas nos cotovelos e absortas na conversa. A entrada do lugar estava diante de uma avenida com poucos carros passando em alta velocidade. E o suicídio de Caetano aconteceu ali. O impacto subitamente chamou a atenção de todo mundo, e foi tão rápido que perdi a expressão.
Numa manifestação estranha de magnetismo, me aproximei do acidente, estava tão perplexo, e sem conseguir tirar a imagem daquele corredor da minha cabeça, que só me passava agora na cabeça o quanto eu sentia que alguma coisa ali não estava certa, o quanto, afinal, eu sempre achei que Caetano precisasse de ajuda.
Uma semana depois se deu a homenagem a ele. Muitas mesas forradas de branco no velório, arranjos de flores em cada uma, pais, alunos, professores, a Coordenadora do Curso. Você podia intuir pelo volume das conversas um clima estranho. Eu não tinha exatamente vontade de sair dali, mas os assuntos sobre Caetano, as causas para o suicídio, tudo aquilo era muito superficial. Garotas observavam de canto a família de Caetano e diziam comentários que pra mim só poderiam ser ditos com uma certa surdez.
Eu queria entender melhor como funcionam as injustiças dentro de uma comunidade. Queria espezinhá-las, abri-las em carne. Mas a dinâmica do mundo atropela as variáveis. Quando vejo: o que estava errado já passou, não sei mais qual posição assumir. Curiosamente, chamam isto de caos, mas só é caos quando contemplamos um conjunto muito grande de coisas e nos excedemos.
O velório de Caetano terminou, e eu lembro agora, e não disse isso antes porque eu não consigo encaixar a atitude dele de nenhuma forma. Ele se matou dando uma cambalhota pra trás. Uma aluna ficou inconformada com aquilo, muito, o choque pôs ela em lágrimas e descontrolada. Punha as mãos na boca, não admitia, e eu no meio daquilo tudo, daquele desespero.
02/2012
Aquele que com um lenço estampado de pontos pretos, branco ao fundo desses pontos, protege-se agora do Sol, o suor lhe conferindo o aspecto sujo do rosto, a calça larga e verde, o boné comercial prendendo o próprio lenço; aquele, que pode muito bem se passar por um traficante; aqui, é um jardineiro.
Então não imagine: o real, e assim vai ser, se impõe como uma torre inobservável.
No município de Itapuranga, interior do Sul de Goiás, jaz um lago pouco conhecido pelos habitantes da cidade e freqüentado por um pescador idoso. A história contada aqui narra os eventos que se deram por volta de 1999 e permanecem inquietos até hoje, sem resoluções tanto pela Prefeitura de Itapuranga, quanto pelos habitantes da cidade ou os envolvidos.
O lago de Itapuranga é um lago pouco comentado pelas pessoas da cidade, é assunto dos momentos que as donas de casa arrastam suas chinelas caminhando devagar por volta das seis da tarde, dizendo coisas como “aquilo sobre o lago é tudo história” ; “aquele pescador deve ser é doido, sabe que não tem peixe ali, que é represa”. Também por se tratar de um lugar que não guarda as mesmas expectativas que as festas de som automotivo, ou o próximo aniversário municipal que a Prefeitura organiza com shows que, infelizmente, não podendo pagar pelos artistas sertanejos mais famosos que tocam incessantemente nos aparelhos de rádio, acerta com os artistas da região. O número de rádios da cidade é assustador, talvez mais de quatro mil rádios, espalhados por cada recinto, boteco ou sala de espera, e com um pouco de imaginação podemos sentir todos simultaneamente ligados confusamente em nossos ouvidos.
O senhor pescador que freqüenta o lago é conhecido por sua rotina concentrada e severa com o hábito de pescar. Tem sua canoa, sua vara rudimentar de bambu, iscas, e um olhar sobrecarregado de tempo vivido. Os horários da pescaria variam, mas há uma preferência pelas madrugadas anteriores ao Sol e os entardeceres. Às tardes e as manhãs ele entrega para os afazeres da casa e da cozinha, subsistência séria e praticamente religiosa que ele leva consigo. O senhor é tido como um isolado pelos habitantes de Itapuranga, e tem um respeito venerativo do Prefeito.
Onde está o carisma do pescador uns diriam que na excentricidade, outros no mistério que há em não pescar peixes, mas ainda assim frequentar o lago e se valer da vara, jogar a linha com o anzol e assistir pacientemente a falta de eventos. No entanto a história muda, e isso é coisa confirmada por muita gente da região, quando o senhor num assalto começa se degladiar com a vara. São puxões firmes e sérios, muitas vezes posteriores a fisgadas mais concentradas ainda, que podem durar minutos de batalha silenciosa de pé na canoa.
O lago de Itapuranga é conhecido por sua cor neutra e opaca, preta como um mar absolutamente sem lua, como a falta de energia num quarto, e é uma cor tão escura que assusta até pelo silêncio que a cor provoca. Muitos anos atrás, um jovem nascido aqui, Itapuranguense, que hoje faz Ciências em alguma faculdade do interior de São Paulo, descobriu uma propriedade singular desse lago que, obviamente, não foi discutida, e sequer o assunto foi ouvido pela Câmara de Vereadores. O jovem demonstrou que a falta de peixes no lago se deve não a algum fator ambiental sério, mas à falta de espaço debaixo d’água. Acusou que o lago era atravessado inteiramente por um tecido esticado similar à pele humana, com cerca de quatro metros de altura do fundo do lago, e acinzentado por vários tons de cinza. O jovem também disse que não sabia o que havia defendido por baixo deste tecido, mas supunha ser um ecossistema sinistro, porque nunca mais ouviu falar em qualquer comparação com aquilo nos seus anos de Ciência, e nem queria saber também, porque era passado. Contou também uma cena que até hoje ainda deve ter guardada.
Curioso por essas recentes descobertas, Dirceu, o jovem aspirante à cientista, passou a espiar a rotina do senhor no lago e percebeu que as lutas com a vara forneciam elementos suficientes para que ele explicasse algumas coisas. Que o tecido, apesar de mole, era enrijecido, e não havia oportunidade alguma de vê-lo na superfície, e que o anzol do pescador puxava e não rasgava o tecido. A semelhança com o látex foi o que primeiramente lhe veio na cabeça, mas nunca procurou especificações para o material, lhe impressionava, no entanto, alguns fenômenos observáveis no lago durante as bruscas movimentações do pescador. O tecido parecia não sentir os efeitos físicos travados entre o senhor e a água, permanecia calmo, porque de alguma forma o pescador executava uma força ideal ou sob medida quando obtinha as fisgadas. A encenação lembrava uma acrobacia onde se controla seu próprio peso. À luz da lua, a cena era engraçada, e parecia uma dança japonesa com posições esdrúxulas de animais e de dragões, mas como havia uma lógica e uma espécie de coordenação espontânea naquilo, não soava ridícula.
A dança, que podia ser rápida ou durar até mesmo uma hora, levava o senhor pescador a uma exaustão respiratória, mas que ele insistia em omitir que estava ofegante. O jovem escondia-se em quaisquer das moitas verdes vizinhas de uma série de árvores; e, à luz da lua, sentia que estava no máximo de atmosfera de aventura que ele poderia sentir numa cidade do interior.
O fim do ritual era ainda mais apreciado pelo jovem: o lago latejava com as pulsações do tecido, e o senhor, na saída, contemplava o ambiente passando os olhos em toda a extensão. Havia no semblante do pescador uma marca de dever cumprido, e as pequenas ondas que chegavam até seus pés eram para ele similares a ternas expressões de agradecimento.
Hoje Dirceu está formado. Itapuranga está distanciada de sua vida, mas há um estranho convívio pessoal com a cidade que nunca o priva completamente de um senso de humildade que lhe desperta um sentimento inferior. Às vezes Dirceu dispara surtos de raiva em direção a esta humildade, mas ela segue como um traço permanente nele, que no olhar e na vivência do pescador idoso sempre pareceu mais rigorosa ; e, nos olhos de Dirceu, uma humildade um pouco ridícula. O lago continua no mesmo local, as pessoas continuam comentando, faz parte da cultura, e o pescador está com sua mesma rotina – vista de fora, ela integraria a região como um costume sedimentado por cinqüenta, sessenta anos.
O município de Trindade, conhecido pela catedral e pelos frequentadores que, em junho, exercem a fé nas procissões e romarias; encontrou, num de seus dias de semana, um rápido mal estar provocado por um de seus moradores. A compra tradicional de carnes e linguiças, feita até mesmo pelos moradores de Goiânia que percorrem os 30km de Rodovia que separam as duas cidades, foi feita agora com outra finalidade, por um jovem.
O jovem, de aparência limpa e cabelos cuidadosamente raspados, chamava-se Leonardo Mandalim. Decidiu, então, executar uma performance artística usando pedaços crus de carne. A execução do ato se deu num dos pontos de oração separados por escadarias que dão na Catedral.
Vestindo apenas uma sunga dura e oca, de material plástico, Leonardo separou os pedaços mais vívidos de carne vermelha, aqueles que o tom amarelo opaco dos trechos da gordura contrastam com o vermelho de carnes tipo Cupim. E enfileirou os pedaços num banco.
O sol ardia estavelmente, a intensidade da temperatura era acompanhada de uma calma angustiante, pacatez desesperadora quando se contempla a perspectiva daqueles que estão sentados ou escorados nos portões das casas de uma cidade do interior.
Leonardo ligou seu pequeno radio à pilha - que tocava “Just Dance.” Rapidamente, iniciou sua dança amadora girando e com saltos calculados. Com a ponta dos polegares e os dedos indicadores segurava, numa pinça, os dois pedaços de carne, que ondulavam agora como panos de cortina rasgados.
Leonardo carregava dentro de si uma fagulha estimulante de ansiedade, que, durante a dança, se distendeu provocando êxtase. A taquicardia da experiência representava tanto o medo quanto a coragem do ato. Persistiu em sintonizar-se numa frequência mental de ousadia, mas o medo que ela se dissipasse o atacava lentamente, e então ele fechava os olhos para se concentrar na música. A esta altura alguns cidadãos já se reuniam com olhares receosos. Observavam a seminudez de Leonardo, os pedaços de Cupim que eram provavelmente do conhecido açougue Tesourinha, e simplesmente não entendiam.
Fugia do alcance moral deles a libertação de Leonardo; para aquelas pessoas, o evento era inexpressivo. Depois de uma certa perplexidade, a parte masculina dos cidadãos ali em volta passara a sentir nojo, enquanto as mulheres se preocupavam com o desperdício da carne. Nessa altura Leonardo já pressionava suas pálpebras para dentro enquanto executava os movimentos com os pedaços de carne crua. Sua dança parecia cada vez mais vaga, sem sentido.
Então, Leonardo sentou no banco, e usando um dos pedaços de carne como uma espécie de lenço, apoiou-o no rosto segurando sua testa com os dedos. Nisto, um homem lhe perguntou:
- “Meu filho, o que você tá fazendo?”
Leonardo atirou um lindo olhar para o homem, um olhar que só se obtém o efeito após uma angústia, as pupilas injetadas de lágrimas, interrogativas, mordendo infantilmente um pedaço de carne enquanto coçava os pés concentrado.
Não respondeu. As pessoas em volta se entreolharam com vistas a alguma atitude comum. Uma senhora começou a recolher os outros pedaços de carne estendidos no banco, alguns já até iam embora comentando, até que uma mulher, de feição maternal, se sentou ao seu lado:
“ - Filho, não faz essas coisas. A gente daqui é simples, num tá preparado pra isso. Vai pra casa, já tá anoitecendo.”
Leonardo olhou para ela com olhos de bicho, e precipitou um murmúrio, mas desistiu. Desistiu de tentar qualquer gesto parecido, desistiu de tentar de uma vez por todas, desistiu da memória passada da igreja aos domingos, desistiu de qualquer tradição possível que o vinculasse àquele lugar, desistiu das pessoas e das crianças, dos parentes, das praças e da arborização, desistiu do paisagismo ridículo daquela maldita cidade, que o reduzia, que o limitava.
Este achatamento que ele sentiu por muitos anos, ele soube bem mais tarde, se transformou numa vingança de anos, organizada num projeto de vida: naquele instante decisivo estava o que ele entendeu ser a origem de uma nova identidade.
Era uma série de conversas que aconteceram em vários cômodos desta casa de decoração antiga, com o cheiro dos anos na mobília, com um criado mudo no tom de uma madeira envelhecida estranhamente destacado, que acontecia agora num dos quartos, espaçoso e servido por duas camas de solteiro e roupas de cama com anos de lavagem - brancas com a dobra de um lençol em azul claro desgastado.
Talvez o destaque do criado mudo tenha relação com o rosto dela, pela cor da madeira, e com a estranha garantia que eu senti em nossas conversas. A garantia do tempo, talvez? Naquele cenário, ela tão real, muito mais, talvez, do que antes, me levou a concluir que aquilo inevitavelmente era um sonho e que estávamos no futuro, numa fazenda de vários cômodos, e eu nos meus quarenta e sete anos de idade.
Numa dessas conversas percebi naquele rosto um olhar que conferiria, posteriormente, o nome dela. E na ausência do desejo surgia apenas esta calma, novamente a garantia do tempo, emanando no quarto uma segunda calma, ambientada e traduzida nos móveis.
A entrada de uma bifurcação conhecida que leva para o início da Rodovia Bandeirantes, sentido São Paulo, na altura de Limeira, anuncia um percurso notavelmente sedutor para a velocidade. À distância, e do ponto de vista de, talvez, um helicóptero, a pavimentação da estrada e a cor esbranquiçada do asfalto destaca e desenha traços reais numa agricultura paulistana e latifundiária, em blocos, e com variações óbvias de verde.
Por seis faixas paralelas a rodovia agora começa a se estabelecer imponente, mas importa aqui o trecho. Da bifurcação até por mais alguns quilômetros, antes da sensação de trânsito que antecipa São Paulo, antes mesmo de emendar noutra rodovia; ali, você está sozinho, e é um deserto importante para os amantes de carro, as pessoas que ainda apreciam viajar por rodovias, as longas distâncias.
O trecho também leva outra característica particular. Além das pontes frequentes, o asfalto tratado com zêlo, a falta de vegetação, e outros carros que mais parecem figurantes; a angulação das curvas é longa, consideravelmente longa. Talvez ao final de cada curva percorrida por dois ou três minutos, na velocidade padrão-Bandeirantes (160km/h), constatemos, como o encerramento de um arco em nossa consciência, a extensão dos nossos erros, e quanto tempo leva para renovarmos.
“It is strange that it was Proust, an author thought to be a pure intellectual, who said it so clearly: treat my book as a pair of glasses directed to the outside; if they don’t suit you, find another pair; (…)”